Jefferson Peixoto
Sempre desconfie da felicidade
Eu sempre desconfiei da felicidade, sempre fui meio incrédulo quanto a sua eficaz existência. Seu surgimento ao longo do dia, fazendo-me rir até de piada mal contada, do balançar de rabo de cão de rua, do copo de café quente que se distrai nas mãos e ganha o chão. Nesses dias, quando essa vã felicidade se instala na gente, somos capazes de encontrar graça até mesmo nos seres mais sem graça desse mundo. Mas qual seria o significado real dessa balela passageira, que nos invade como se fosse um anúncio de alguma empresa de telefonia celular? Significado, significado, significado... Sempre estou à procura do diabo de tudo quanto é significado pra tudo quanto é diabo de porcaria. Para todas as coisas têm que haver um, no mínimo, e sigo procurando sempre, como um tolo desconectado com a pureza das coisas.
A moça do restaurante me exclama: “estou muito feliz, casarei no sábado!” E como se fosse um limpador de pára-brisas que acionamos no carro ao percebermos a chuva, penso logo no significado da felicidade dessa pobre mulher. E fico imaginando por quantas semanas ela será capaz de se manter assim: feliz.
Um vizinho vem sorrindo em minha direção, louco para que eu pergunte a razão de tamanha alegria, para não atrapalhar o desenrolar da peça teatral de nossa vidinha real, vou na onda dele: “e esse sorriso?” E ele responde quase a babar: “Meu filho passou no vestibular pra medicina!” E penso logo no prazo de validade desse sorriso...
O outro está feliz porque é o dia do seu aniversário; já o rapaz que torce para aquele time traduz sua felicidade nas vitórias que o escrete conquista; e a garota ajoelha-se ao chão de tanto rir de uma história de fim de semana narrada por uma amiga... Felicidade? Não. Momentos felizes.
A felicidade é como a fome, a sede, o frio, sentimos por alguns momentos e logo depois não sentimos mais - é, também há quem morra de felicidade! Comemos quando sentimos fome, bebemos água ao sentir sede, nos agasalhamos ao frio e tratamos logo de encontrar algo que nos entristeça para pôr fim na felicidade, como se fosse uma maldição para toda a humanidade, pelo desacordo insolente em torno de uma certa macieira no início do mundo. É um processo instintivo, o corpo nos leva a isso de maneira quase inconsciente. Essa rotatividade sentimental nos mantêm vivos, a necessidade, a eterna busca por saciar nossos desejos, a intranqüilidade nos mantêm atentos para darmos conta de nossa trajetória hostil.
Dinheiro não compra felicidade e o amor nos ilude em relação a isso, precisamos de equilíbrio sempre, pois a desgraça quando se apresenta àqueles que se julgam felizes os surpreendem de tal maneira que os levam à amarga destruição. Sorria, mas não sorria muito; tenha momentos felizes, o máximo que puder, mas não se prenda a eles; busque a felicidade, mas desconfie sempre dela.
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
Laureado pela Academia Brasileira de Letras.
e-mail: jefpeixoto@hotmail.com
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Escrito por Jefferson Peixoto às 12h35
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Entre críticas, Peixoto e Ronaldo
Sei que muitos esperam que eu venha aqui me retratar sobre as coisas que andei escrevendo sobre a Seleção brasileira e, principalmente, sobre Ronaldo Nazário. Eu até faria isso sem problemas, minha mãe até me encurralou, “É sua obrigação!”. Mas não, não me retratarei, não me valerei dos princípios do bom e velho FHC e pedir para que esqueçam o que escrevi um dia e muito menos para que rasguem meus livros, pois trata-se de futebol, tão somente.
Vibrei com a Seleção diante do Japão, na última quinta-feira, arrepiei-me com os gols de Nazário (Millôr afirma que o plural, na verdade, vem a ser “gous”) e tive uma certeza: Ronaldo é mesmo um fenômeno! Não que ele ainda seja aquele jogador de outros tempos... a idade, os quilos a mais, a vida em si, lhe tiraram alguns atributos, algumas capacidades, mas quem aprende a andar de bicicleta nunca esquece, embora se espatife no chão algumas vezes. Nazário é, realmente, um fenômeno tão impressionante quanto a chuva que cai e molha, reafirmo! Mas a chuva impressiona ao cair quando pouco se espera por ela.
Ronaldo calou a boca dos críticos? A minha não! Pois se trata de futebol, tão somente... jogadores como ele devem ser criticados sempre que se portarem mal em campo, na mesma medida que são enaltecidos quando jogam alguma coisa. Nazário tem que jogar bem sempre, pra valer o quanto brilha. E “ai” dele se não for bem na próxima partida, não serei covarde como foi o presidente Lula, que interessado em tirar uma casquinha da copa, não quis mais falar de Ronaldo. Falo, falo e falo mesmo! Ele que se sinta ofendido e prove sempre que não passo de um escritor idiota que não sabe nada de futebol. Entre críticas, Peixoto e Ronaldo, que sempre dê Ronaldo na cabeça!
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
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Escrito por Jefferson Peixoto às 22h25
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Pessimismo que me faz confiante
Sempre fui um sujeitinho dotado de um pessimismo impressionante. Acho que as coisas, por melhor encaminhadas que estejam, tendem a não dar certo, embora quase sempre dêem. Isso vem muito do meu ceticismo sobre os humanos, enquanto uns ficam se martelando por não saberem se acreditam ou não em Deus, eu me questiono em relação aos Homens. Essa coisa de otimismo nunca combinou muito comigo, por mais que eu cruze os dedos, torça, utilize alguns mantras pessoais bem idiotas, no fundo, tem uma voz “sem vergonha” dentro de mim que diz: não vai dar certo! E o brasileiro é tão otimista! Como esse povo acredita nas coisas e nas pessoas, eu hein! Até em relação ao presidente Lula o povo foi otimista. E agora vem a Seleção na Copa do Mundo: o favorito! O melhor time do mundo!
Enquanto a brasileirada se esbaldava na crença de que a Seleção daria espetáculo na Alemanha, eu, com meu pessimismo, tendi a esperar bem pouco dela, placares magros, jogos sofríveis, vitórias arrancadas de tufos de grama, otimismo algum. Eis que, depois da segunda partida, a torcida canarinho encontra-se decepcionadíssima!!! Esperavam uma mansão em Beverly Hills e ganharam um sobradinho em Diadema.
Ora, esperavam que Ronaldo ainda fosse o “Fenômeno”? Ronaldo é um fenômeno tão impressionante quanto a chuva que cai e molha. Ronaldinho Gaúcho, o melhor do mundo? Só se for o melhor do mundo do Barcelona, pois esse que veste a 10 amarelinha não seria titular nem num timinho que eu jogava em Valparaíso de Goiás há alguns anos. Cafu e Roberto Carlos logo se juntarão a Romário em um time de velhos nos Estados Unidos. Diante disso tudo, do futebolzinho capenga e esperado que a Seleção vem jogando, começo a achar que meu pessimismo era conveniente, não se trata mesmo de um Dream Team, mas sim de um time comum, que possui as mesmas chances de ser campeão como qualquer outra seleção. É, aos poucos, meu pessimismo vai me deixando muito confiante em relação ao hexa! Já dizia o bêbado-lá-da-esquina: “o segredo para não se decepcionar é não acreditar tanto...” Sábias palavras!
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
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Escrito por Jefferson Peixoto às 22h46
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Bêbados e gordinhos
Passei a vida inteira acreditando que o jogador Romário fosse um farrista de primeira linha, inclui-se aos requisitos básicos para ser um bom farrista o uso do álcool. Pois bem, Romário me decepcionou, ao dar entrevista ao colega Vitorino Chermont, o “baixinho” declarou, entre outras coisas: “Não bebo!”
Em contrapartida a isso, sempre tive o atacante Ronaldo Nazário, o “fenômeno”, como uma péssima imagem ao mundo boêmio, um cara que não bebe não merece lá muita confiança. Pois eis que descubro que Ronaldo adora uma “biritância”. Segundo um amigo jornalista que reside em Madri, o camisa nove da seleção não dispensa uma cervejinha ou outra variação etílica. E Ronaldo tirou sarro do presidente da República! Insinuou, como quem afirma, que o nosso bom Lula “bebe pra caramba”. Tudo em uma ignorante resposta a uma pergunta inocente do nosso presidente petista em relação ao fato do atleta dentuço estar gordo ou não.
Tudo bem, ninguém respeita o presidente há muito tempo, nem ele mesmo se respeita, faz-se de caduco diante de algumas verdades escandalosas, mas fica feio quando um “Zé ninguém” de nossa história oficial se pronuncia de maneira tão dura. Ora, Ronaldo que vá jogar bola, agarrar modelos, ganhar dinheiro, cuidar da grama de seu campinho de golfe em Madri, mas “tirar onda” da cara do presidente do meu país? Vá emagrecer, Ronaldo! Futebol só é ópio do povo sem inteligência, meu caro!
Nem Lula e nem Ronaldo! Meu presidente é omisso. Ronaldo há muito não joga bem. Lula aprendeu a ser diplomático e Ronaldo desaprendeu, pelo visto... Quem perde com isso tudo? Hummm... como sempre, quem perde é o Brasil.
Lula será reeleito e Ronaldo está perto de ser Três vezes campeão Mundial. Em meio a essa briga, entre Argentina e Alemanha, eu torço pelo Brasil na Copa, torço pelo Ronaldo; em meio a essa briga, entre Alckmin, Heloísa Helena e mais ninguém, eu fico com Lula. Pra encerrar essa briga, fica declarado: tanto o presidente quanto o atacante estão gordos e bebem pra caramba!
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
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Escrito por Jefferson Peixoto às 20h58
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PASSEI A GOSTAR DA HELÔ
Passei a conhecer a senadora Heloísa Helena quando, há alguns anos, explodiu o escândalo do painel de votação do plenário, todos devem lembrar de ACM e José Arruda renunciando para não serem caçados e cassados. Pois bem, chegava a me sensibilizar com a aparente fraqueza daquela pequena alagoana, de trajes simplórios, rosto magro e semblante triste. Mas só até Vossa Excelência elevar sua tagarelice em defesa de seus direitos e de sua tão estimada honra. A mulher sabe fazer barulho, sabe se impor em meio àqueles imensos bonecos engravatados, cheios de poder.
Quando Lula – leia-se PT – assumiu a presidência da República e surpreendentemente renegou toda a ideologia do partido, nomeou Henrique Meireles para Banco Central e deu continuidade ao, antes tão combatido, governo FHC, Heloisa Helena veio ao cume e partiu com voracidade contra o próprio partido. Passou a ser oposição dentro da própria casa. Oposição mais ferrenha do que a dos originais opositores, estes fazendo parte de um jogo de conchavos e alianças infelizes. A senadora Helô, não sei, com todo respeito, mas ela tem cara de Helô... cara de tia Helô... enfim, a senadora e outros petistas acabaram sendo expulsos do partido que ajudaram a transformar no maior de esquerda da América Latina. É como ser expulso de casa pelos próprios filhos.
Hoje, Helô e os dissidentes petistas fundaram o Partido Socialismo e Liberdade, que atende pela sigla de “PSOL”. Partido que veio para limpar toda a sujeira, matar todos os germes da politicalha nacional. Eu não resisti à infâmia de associá-lo ao Pinho Sol. Ainda existe Pinho Sol?
Eu nunca fui muito afeito a político esbravejador, gente que fala demais em honestidade, defesa da honra, essas conversas de pé-de-palanque que já não iludem a quase ninguém. Também não gosto de político coitadinho... mas da Helô comecei a gostar! De um tempo pra cá, algumas de suas atitudes e declarações me chamaram a atenção. Heloísa Helena pode não ser lá um poço de competência, mas é um lago de honestidade, de personalidade e, sobretudo, segue firme na defesa do que acredita ser melhor para o país, se é certo ou errado, isso são outros quinhentinhos. Quem diria? Eu, falando bem da Heloísa Helena, logo da Helô? Talvez eu não esteja falando tão bem assim, afinal, não confio na capacidade da senadora nem para ser síndica do meu prédio, no entanto, confio a ela minha carteira de dinheiro. Ah! E com dinheiro dentro!
Taí, passei a gostar da Helô...
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
Laureado pela Academia Brasileira de Letras.
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Escrito por Jefferson Peixoto às 13h53
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PRECISAMOS PERDER MAIS TEMPO
De acordo com a Lei Estadual nº 13.312, a qual preceitua no artigo 1º, que todas as agências bancárias estabelecidas no Estado do Ceará ficam obrigadas a manter, no setor de caixas, funcionários em número compatível com o fluxo de usuários, de modo a permitir que cada um destes seja atendido em tempo razoável”. O tempo estipulado: no máximo quinze minutos. Tudo muito ágil, pois o homem moderno não tem tempo a perder.
O “Não perder tempo”, talvez seja esse o grande mal do século. Nós corremos como se fossemos loucos varridos em busca de algo que, quando conquistamos, percebemos não ser tão importante quanto à angústia que se viveu, aos cabelos que caíram, às pessoas que deixamos de tratar como mereciam, a vida que não vimos passar... A que ponto chegamos? Ser preciso uma lei que nos garanta uns minutos a mais de selvageria urbana, correria... Precisamos perder mais tempo, precisamos, de vez em quando, não fazermos absolutamente nada. Agora, há pouco, senti os raios do sol em minha mão, e foi estranho, pois não percebia mais detalhes mágicos como esse. Nossa geração pouco sente o cheiro do mar, o toque do pé no chão. Nossa geração passa o dia inteiro dentro de uma roupa que nos empacota como um embrulho para presente; Nossa geração está congelando em salas com ar-condicionado, ouvindo as lamúrias da espécie, se estressando fácil, nossa geração está a ponto de mandar o mundo para a p. que pariu! - perdoe-me a infeliz expressão.
Lembro do tempo em que pegava enorme filas em banco – hoje é tudo on-line, ainda assim reclamamos que a internet é lenta -, um momento engrandecedor, uma boa fila, tempo para pensar, tempo para refletir, tempo para não pensar em nada. Sem essa de pressa, o mundo está parecendo um ônibus lotado, guiado por um motorista bêbado descendo a serra de Guaramiranga. Desse ônibus que quero descer. Fico na próxima parada.
Não podemos mais perder um único segundo. Lembro que o McDonald’s lançou uma promoção há alguns anos: o seu pedido em 45 segundos ou você leva de graça. Imaginem o stress dos atendentes e a euforia dos clientes... que coisa louca essa promoção, abriu procedentes perigosos, pois todas as lanchonetes tiveram que acelerar seu processo de produção ou o cliente já abria o berreiro. Disso eu não gosto, pressa para comer? Morte rápida na certa! Gosto de um aperitivo, gosto de esperar um pouco, bater um papo, para que essa pressa, ora?
Óbvia conclusão: precisamos de mais tranqüilidade, menos pressão para nos mantermos eretos aos padrões capitalistas, menos pressões de fora para dentro e, principalmente, de dentro para fora. Hoje fiquei sabendo que a ”Lei da Fila” já não está valendo, aquela velha palhaçada do jogo de liminares, então, amanhã vou fazer questão de ir pagar alguma conta no banco, espero que a agência esteja lotada, cheia daquela gente besta que fica puxando assunto desnecessário, sim, que puxem assunto comigo, dessa vez não vou me irritar; que a fila ande como estátua ao vento, que eu perca tempo, é isso, as outras coisas importantíssimas que esperem, pois eu preciso perder mais tempo! Eu... preciso... perder... mais... tempo...
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
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Escrito por Jefferson Peixoto às 15h33
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UM DIRCEU FORA DO CASULO
O criativo e “imortal” Dias Gomes presenteou este país com umas das mais célebres histórias de nossa teledramaturgia: O Bem Amado. Embora eu fosse ainda um bebê à época. Foi novela, depois virou seriado, mas sempre em evidência, sempre cativando e intrigando o telespectador. Dentre muitos personagens marcantes, o interpretado por Emiliano Queiroz me vem à cabeça neste momento: Dirceu Borboleta. Assessor do prefeito corrupto e populista Odorico Paraguaçu. Um pobre diabo de fala complicada, entre o fanho e o gago, que sofria ao tentar se impor diante dos outros. É fácil saber por que Dirceu Borboleta me veio à cabeça. Em um momento desagradável da politicalha nacional, quando meu xará Roberto Jefferson resolveu chutar o balde e encharcar logo todo mundo, já que ele já estava encharcado, o nome do ministro da Casa Civil veio à tona mais uma vez, José Dirceu, envolvido em um escândalo de corrupção.
Sempre que a coisa fede no governo, o nome de José Dirceu aparece. Ao final ele sempre sai ileso. Foi assim no caso Waldomiro. Quem não lembra? Agora é o caso do “mensalão”. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Roberto Jefferson disse que Dirceu foi um dos criadores deste fundo destinado a comprar votos de deputados. Diferente do Dirceu de Dias Gomes, o petista sabe se impor como ninguém, tem fala firme e convincente, olhar severo e gestos de força, como punhos cerrados. José Dirceu parece estar protegido por um casulo chamado Lula, instransponível, ninguém pode atingi-lo, o presidente não permite. Dirceu Casulo.
Mas dessa vez o casulo fora rompido, Roberto Jefferson foi enfático em seu depoimento, dizendo para o ministro da casa civil renunciar para não transformar o presidente em réu. Dirceu saiu do casulo, ainda que em seu discurso de renúncia do ministério quisesse transparecer uma autoridade, ética e moral, que já não convencem mais e se torna refém das suas próprias sacanagens. “Eu saio de cabeça erguida e com a consciência tranqüila...” Deus do céu, quanto cinismo! É assumir a culpa de algo menor para não ter que assumi-la pelo pecado maior. Mas, será que um dia saberemos... ou mais uma vez o tráfico de influência abafará todo o vapor de cebola podre que vem da bela Brasília? Os predadores estão prontos para devorar a mais nova borboleta...
O fim do Dirceu de Dias Gomes eu confesso que não lembro, tenho em minhas lembranças que era uma figura com ares de inocência, quase infantil, ainda que não fosse um anjinho. E o Dirceu de Lula? Infantil, sabemos que não é. Anjinho também não. E inocente, alguém acredita que seja?
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
Laureado pela Academia Brasileira de Letras.
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Escrito por Jefferson Peixoto às 16h06
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A TV ENTROU EM PÂNICO
Quando chegamos à conclusão de que já não há mais possibilidade de se fazer algo novo na Televisão, vem sempre alguém e rompe tudo isso com uma nova idéia. Mas, essas novidades custam a surgir, é de tempo em tempo – assim me vem à cabeça uma expressão do filósofo Castilho. O insuportável Chacrinha certa vez alardeou: “na tv nada se cria, tudo se copia”, e essa frase, que nos remete aos limites de nossa burrice covarde, foi propagada como um pretexto para a mesmice instalada na televisão brasileira. Há muito não se via uma boa novidade na tevê, para quem acha o BBB uma coisa boa, aí... silêncio deste cronista... Eis que surge o Pânico na TV para confundir a cabeça do telespectador tupiniquim, mostrando que humor não é sinônimo de idiotice, que comédia se faz com inteligência e não com Carlos Alberto de Nóbrega e Moacir Franco.
O que é o Pânico na TV? É a extensão de um programa de sucesso na rádio Jovem Pan, que há muito vem liderando a audiência, porém, a adaptação do rádio para tevê, nesse caso, deu certo. Diferente de alguns sucessos do rádio que são grandes desastres na telinha. Apresentado aos domingos na Rede TV! é, sem dúvida, o recheio saboroso do bolo insosso que é a emissora. O Pânico representa uma ruptura na estética televisiva brasileira, nem possui a falsa rebeldia dos programas da MTV e muito menos a mediocridade quadrada das grandes tevês abertas. Em meio há uma pluralidade de canais, posso dizer que O Pânico é hoje a maior atração de nossa televisão no que diz respeito a inovação.
Talento é o que conta no humor, inteligência para fazer as pessoas rirem vale mais que mil cambalhotas e um nariz vermelho. Emílio Surita está a frente da bagunça inteligente da atração, com seu cinismo cômico digno de grandes comediantes americanos, o apresentador tenta comandar sua “trupe” indócil: Bola, Ceará, Sabrina, Mendigo, Repórter Vesgo e outros, cada um com sua parcela importante no programa, até mesmo o Bola, que aparentemente nada faz na atração dominical, tem o seu papel de sem-graça, é o Dedé Santana do Pânico. Um dos grandes trunfos do programa são os textos bem elaborados e narrados de maneira inigualável por Emílio, o que me traz à memória que há algum tempo o Vídeo Show, da Rede Globo, foi premiado pela Academia Brasileira de Letras... não, aí seria querer demais... o Pânico na ABL?
É, meu caro Chacrinha, que deus o tenha! Criatividade e inteligência são características que poucos sabem explorar. Fazer televisão, talvez qualquer um faça, programas de auditório, jornalísticos, esportivos, entrevistas, musicais, religiosos, tem para todos os gostos e desgostos, como diria o bêbado lá da esquina: “o inferno ta chei!”(sic) Mas fazer com real talento, isso é para poucos. Humor, então, é que é para poucos mesmo. Atirar fezes no ventilador todo mundo pode atirar, agora saber evitar que se espalhe o mal cheiro...hum!!Na tevê, quem sabe cria e o incompetente só copia!
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
Laureado pela Academia Brasileira de Letras.
e-mail: jefpeixoto@yahoo.com.br
Escrito por Jefferson Peixoto às 14h14
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Jefferson Peixoto
APENAS O CANSAÇO
Existe uma coisa que ninguém pode nada contra: o cansaço. Ufa! Não há cérebro que resista a um corpo que não quer mais responder, você pode até ter idéias, mas não possui ânimo para executá-las. É o resultado do excesso, seja do que for, não só de trabalho, mas também de farra, sim, farra às vezes cansa mais que o trabalho – mas a gente gosta! – o resultado, como eu ia dizendo: é o cansaço, o esgotamento total, como se fossemos uma lanterna com pilha velha, a luz vai se apagando, se apagando, até que vai-se de vez, dando lugar a escuridão.
Pois bem, as pilhas deste escritor aqui já estão para bater as botas, preciso de férias, uns dez dias já me consolam, apenas para recarregar a energia... uma viagem, uma praia, uma serra, um descanso. Parar e não pensar em nada sério, dez dias sem responsabilidade alguma, só mesmo fazer aquilo que não me exija um mínimo esforço.
Mas, antes o cansaço do que o ócio, não o ócio criativo defendido pelo Domenico de Masi – o Cláudio Raposo leu o livro do sociólogo italiano e ficou impressionado –, é melhor estar morto de cansado do que morto de preguiça, é melhor estar cansado por fazer muita coisa do que estar cansado de não fazer nada. É, não fazer nada também cansa...
O leitor deste blog já deve estar cansado de toda essa bobagem, como diria minha avó Peixoto, ler cansa a vista e no computador é que cansa mesmo, vou encerrar, então, em uma celebração ao cansaço, finalizando assim a minha menor crônica já escrita aqui, que para um romancista lembra mais um bilhete deixado em porta de geladeira, tudo sendo uma insossa desculpa para justificar o fato de não ter escrito nada na semana passada, foi o cansaço, apenas o cansaço... ufa!
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
Laureado pela Academia Brasileira de Letras.
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Escrito por Jefferson Peixoto às 10h18
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QUANDO O FORRÓ MATA
No último final de semana, aconteceu um desastre em Fortaleza, cinco pessoas morreram em um show de forró. Segundo a imprensa local, o lugar que abrigava o espetáculo não possuía capacidade para suportar o número de pessoas a quem os ingressos foram vendidos. Isso não é nenhuma novidade no Brasil, aliás, sejamos francos, no mundo, quando a ganância dos “promoters” se exacerba e eles para faturarem um trocado a mais, querem colocar 10 mil pessoas onde só cabem 5 mil, como passar um elefante pelo buraco da fechadura, fico imaginando o pensamento dos distintos: “É só apertar um pouquinho que vai caber todo mundo, hoje eu vou faturar!”
Isso já aconteceu em jogo de futebol, quem não lembra da final da Copa João Havelange em 2001, Vasco X São Caetano em São Januário? Ou mesmo alguns shows dos Beatles. Mais recente o caso da boate em Buenos Aires... “Vai, empurra que dá!” Quem se responsabiliza?
No citado caso local, a banda de forró era “Calcinha Preta”, meu Deus, não vale a pena morrer por uma calcinha preta, o que dirá por uma banda chamada “Calcinha Preta”. Um show de forró, Sábado à noite, em uma birosca lotada, será que não dava para perceber que estava lotada, dar meia-volta e ir dar o ar da graça em outra freguesia? Mas não, o sujeito comprou o ingresso e quer entrar, afinal ele fez um investimento, não quer perder dinheiro, a vida ele pode até perder, mas o dinheiro... Já dizia meu amigo Castilho, “o mal da humanidade são os cifrões, vivemos e morremos por eles”.
No dia seguinte, com a imprensa fazendo aquela “festa”, aquele velho sensacionalismo sem-graça, tentando somar à matéria o maior número de lágrimas possíveis dos parentes das vítimas, eis que ainda surgem uns destrambelhados caras-de-pau reivindicando o dinheiro do ingresso de volta (assim narrou-me o Paulino Neto), cinco ou dez reais? Não valem nem a saliva desperdiçada.
O Forró já é uma grande porcaria, ainda mais quando começa a matar gente, então é que aumenta minha antipatia pelo gênero. Mas quem se importa, Sábado que vem tem forró de novo, vistam a melhor roupinha, passem aquele perfume, imitação barata de fragrâncias de renome, e se encaminhem para o coxa-coxa, de preferência em um lugar bem rústico, apertado, com banheiro podre, som de péssima qualidade e a enorme possibilidade de morrer pisoteado.
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
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Escrito por Jefferson Peixoto às 10h13
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ESSE TAL DE "ORKUT"
Se você está lendo esta crônica certamente sabe o que é esse tal de Orkut. Afinal, tornou-se o ponto de encontro dos internautas. Pois bem, o Orkut é uma praça virtual ligada ao Google, trata-se de um site de relacionamentos onde o indivíduo tem à sua disposição um mundo de gente de tudo quanto é jeito, de tudo quanto é lugar, a fim de tudo quanto é coisa, de contatos profissionais a contatos sexuais, familiares, extraterrenos, a um clique do mouse, diante da tela do computador.
Pode parecer uma grande brincadeira, modismo da internet, mas não é bem assim. É muito interessante, sim, nele há a possibilidade de reencontrar pessoas que você jamais imaginava rever; existem milhares de comunidades das quais você pode fazer parte, algumas que podem até ser proveitosas no campo profissional, há também as besteiras da internet, mas um pouco de diversão não faz mal a ninguém. As comunidades vão de “Eu adoro comer pasta de dente” à “Sou inteligente e insuportável”, passando por “Eu odeio Jefferson Peixoto” e “Eu leio o CroniCidade”.
O processo funciona da seguinte forma: para fazer parte é necessário que alguém lhe envie um convite por e-mail, depois você preenche um cadastro imenso, escolhe aquela que você acredita ser a sua melhor foto e pronto! Você agora é membro do orkut! Segundo Diego Assis, da Folha de São Paulo, o Orkut é “Uma mistura de jogo da verdade com entrevista para vaga de emprego, que servirá para que os velhos conhecidos se achem na rede e também para que novas amizades se estabeleçam, por meio de afinidades”. Tem gente que inventa mil e uma coisas para melhorar a própria imagem na rede, uns exageram, mas é preciso ser muito cara-dura para mentir nesse espaço virtual, pois certamente vai surgir um amigo que vai descobri-lo com suas mentiras.
Como toda novidade, ao Orkut já deram o alarme: há uma conversa, coisa de profeta do caos, anti-americanos que adoram um tênis da Nike e um bom Big Mac, segundo essa gente o Orkut é um artifício dos Estados Unidos para catalogar as pessoas do mundo todo, tendo informações particulares de tudo quanto é indivíduo. Bem, nesse caso, talvez até seja uma armação americana para dominar o planeta, tudo certo, pois hoje o Tio Sam tem informações sigilosas a meu respeito, sabe que nasci no dia 18 de novembro de 1978, que moro em Fortaleza, meu prato favorito é strogonof e peixe à delícia, já viu até minhas fotos de sunga vermelha... pronto, então ele já pode dominar o mundo!
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
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Escrito por Jefferson Peixoto às 15h34
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MINHA CIDADE EMBAIXO D'ÁGUA
Assisto ao telejornal e me anunciam tempo bom em Fortaleza, 32 graus, mais um natural dia quente. Mas, é aquilo que digo, em previsão do tempo, em político e em mulher bonita não se deve confiar tanto, aliás, em político não se deve confiar nunca. Pois um temporal de assustar peixe despencou por cá, uma chuva matinal alagou tudo quanto foi de rua e estragou o penteado de muita gente. Pobre Fortaleza, não está preparada para tanta água, bem verdade que não está preparada nem para um reles chuvisco, choveu: inundou!
Aqui, pelo menos, não existe divisão social no tocante “alagamento”, é água para todo mundo, área nobre ou favela: água acima da canela! Perdoem-me a parca rima, é uma má influência desse tal de Rap da Brutolândia, que agora toca, sem pedir licença, em qualquer lugar. Voltando à chuva, quase que não consigo chegar ao trabalho, entre uma freada brusca e outra, fui tentando escolher as ruas menos alagadas para trafegar, o que ao longo do percurso ia se tornando cada vez mais difícil. Vi carro boiando, gente encharcada, abalroamentos, só faltava o Noé cruzando a Av. Santos Dumont com sua arca da Audi... É! Tudo isso em Fortaleza, a mesma que chamam de Terra da Luz, onde tem sol o ano inteiro, essas besteiras para atrair turista bobo. Aqui chove sim, e chove muito! Aqui tem alagamento, pois não são tomadas as devidas providências para resolver esse problema. Todo ano o que se vê são obras e mais obras, quebra aqui, quebra acolá, muito dinheiro em jogo, a obra empaca e quem sofre é a população, pois basta um sereno para alagar tudo.
Minha preocupação nesse temporal era com o carro, meu anjo-de-olhos-verdes não queria estragar a escova feita nos cabelos, apenas material, mas e quem mora em morro, área de risco? Aí, vira drama de verdade, um drama Datênico (referente ao José Luís Datena, que adora uma enchente). Não sou engenheiro, não sei nem como se faz massa de cimento, mas tenho certeza que solução tem! Não consigo crer que um Homem que vai à Lua não seja capaz de impedir que as ruas da sua cidade fiquem embaixo d’água a qualquer chuva. Se bem que minha avó diz que o homem não foi à lua...
Segundo a Fundação Cearense de Metereologia e Recursos Hídricos (FUNCEME), a tendência é que, nesta sexta-feira, o tempo permaneça nublado, com possibilidades de chuva maiores para a madrugada e início da manhã. Alguém acredita?
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
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Escrito por Jefferson Peixoto às 09h25
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Jefferson Peixoto
ESTÁDIO VAZIO: EU VOU!
A grande novidade do ano no futebol brasileiro não é jogador argentino feio, nem atleta negro dizendo que o outro é mais negro que ele, nem a despedida do Romário, que parece mais um “ah! desliga você” em namorico juvenil, nem jogador que imita foca, enfim, o que vem chamando a atenção é a nova punição imposta aos clubes: jogo sem torcedor!
É a melhor coisa que já fizeram para o futebol brasileiro nos últimos anos. Parece meio incoerente, mas para o estádio vazio eu vou! Levo meu anjo-de-olhos-verdes, vou vestido com a camisa do meu time de coração: um programa divertido. Vamos fazer uma campanha: Estádio vazio: eu vou! (que os caras que fizeram o marketing do Rock in Rio não me ouçam).
O estádio tem que ser esvaziado sim, mas de gente que deveria ser platéia pra torneio de presídio, de gente mal-educada, primitiva, pra esses os estádios devem ter sempre as portas fechadas. Sou colunista de uma revista de esportes aqui no Ceará, escrevo sobre o futebol cearense, mas nunca vou ao estádio, vez ou outra me criticam por isso, mas lá não ponho os pés. É coisa pra quem gosta de ser mal tratado, eu gosto de conforto, de segurança, de comodidade. No dia que o PV e o Castelão seguirem o modelo europeu, por exemplo, eu faço questão de ir, vou ver até jogo de terceira divisão, pois amo o futebol. Mas não existe amor no mundo que faça com que eu me sujeite a essa baderna selvagem. Torcedor que vai ao estádio ser pisoteado, assaltado, que tem seu carro arranhado no meio da rua - pois não há estacionamento -, molhar a barra da calça com urina ao ir ao banheiro, tem um pouco daquele conceito da “mulher de malandro”, ou não tem?
Quero me sentar à sombra, em uma cadeira confortável, poder torcer pelo meu time sem medo de levar uma surra da torcida adversária, levar minha esposa e não ficar constrangido quando ela pedir para ir ao banheiro, ter garçom pra me atender quando eu quiser tomar uma cerveja ou um refrigerante, quero sair e encontrar meu carro no mesmo lugar onde o havia deixado, sem nenhum arranhão... parece uma utopia, sei, mas por que não pode ser assim?
Acho que nesse campeonato brasileiro não era pra ter torcedor em estádio, tudo vazio, jogo só pela televisão. É tão bom, dá pra ouvir até o som do impacto pé-bola, o treinador orientando o time, o repórter discutindo com o cinegrafista, é uma beleza! Fecha tudo, deixa a malandragem que gosta de ir fazer baderna em estádio arranjar outro lugar pra fazer seu inferninho, quem sabe aí as pessoas de bem possam voltar a freqüentar um estádio de futebol.
Vamos fazer parte da campanha: Estádio vazio: eu vou!
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
Laureado pela Academia Brasileira de Letras.
e-mail: jefpeixoto@yahoo.com.br
Escrito por Jefferson Peixoto às 11h19
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Jefferson Peixoto
MV BILL NEM FEDE E NEM CHEIRA
Hoje em dia, qualquer estardalhaço promovido pela temática da violência, ganha corpo e invade nosso cotidiano sem pedir licença, sendo assim, não posso deixar de falar de MV Bill.
Pois bem, MV Bill é um rapper negro, do Rio de Janeiro, metido a revolucionário, de conceitos e atitudes duvidosas. Acaba de lançar um livro intitulado “Cabeça de Porco”, que é o resultado de um trabalho com seu empresário Celso Athayde, que nos últimos sete anos pesquisaram em favelas de nove estados brasileiros crianças e jovens que vivem no mundo do crime, a esta pesquisa se associam os textos do antropólogo Luiz Eduardo Soares – um conjunto de registros etnográficos sobre juventude, violência e polícia.
O tema, clichê: o tráfico de drogas, o preconceito, a desigualdade social, o faroeste caboclo dos morros e favelas, ou seja, nada mais que uma enrugada letra de um rap de quem, aparentemente, encontra-se puto da vida. Um cara cheio de histórias para contar, porém, nenhuma novidade, nada que qualquer morador de um morro carioca possa se surpreender, aliás, não surpreende a ninguém. MV Bill tornou-se figura certa em programas de televisão, do Faustão ao Roda Viva, na Tv Cultura, se duvidar, vai ao Gugu no domingo e no João Kleber na segunda e logo vai ser mostrado se esbaldando na ilha de Caras.
MV Bill é bem visto por inúmeras celebridades tidas como intelectuais, Caetano Velozo, por exemplo. Já recebeu prêmio até da UNICEF. Mas o que, de fato, MV Bill nos traz de relevante, que argumentos ele apresenta para acordar a sociedade? Nenhum. Nada de novo, somente o estalo para uma seqüência de um filmeco nacional: “Cidade de Deus 2”.
O rapper carioca é um símbolo dos revolucionários modernos, daqueles que mordem e assopram, daqueles incapazes de serem convictos em suas opiniões, tudo em causa própria. É um cara que bate e alisa, sendo incapaz de descer o pau nos traficantes e também na polícia. Politicamente: em cima do muro; em relação ao preconceito racial: nada de novo. Não há verdade em MV Bill, não há saída com MV Bill, tenho pena da molecada que entra de cabeça em seus projetos sociais no morro, pois não há esperança em MV Bill, que nada mais é que um nascido pobre, de vida sofrida, com um único objetivo na vida: ir para bem longe da miséria que o cerca, sendo que isso ainda não aconteceu porque esta miséria ainda lhe é conveniente e muito lucrativa.
MV Bill não recolheu o lixo, não deu dicas de como fazê-lo, apenas chutou a lata e espalhou o lixo pelo chão e, no meio dessa podridão, MV Bill nem fede nem cheira.
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
Laureado pela Academia Brasileira de Letras.
e-mail: jefpeixoto@yahoo.com.br
Escrito por Jefferson Peixoto às 13h17
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OS HUMANOS CONTRA OS RACISTAS
Tem gente que veio ao mundo somente para fazer pirraça, só mesmo para esculhambar esse nosso mundinho redondo, gente que já acorda com uma disposição inteiramente dispensável para fazer coisas ruins. Qualquer dia arredo o pé daqui e vou tentar a vida longe de tudo quanto for silhueta humana. Ah! Tudo bem, começo mais uma vez enfadonho, aparentemente puto da vida com tudo e com todos, mas não estou tão ranzinza assim, pelo contrário, tomo agora uma taça de um vinho que meu anjo-de-olhos-verdes trouxe especialmente para esse incansável cronista, fazendo o que ainda podemos fazer diante de tanta esculhambação: indignar-se através da ironia.
Pois bem, quarta-feira à noite, dia de meu querido SPFC jogar pela Taça Libertadores da América. Um vinho, um salaminho, um queijinho de minas em cubos, corpo largado preguiçosamente na poltrona, enfim um momento raro de paz. Eis que um jogador do Quilmes, adversário do Tricolor naquele jogo, time da Argentina que veio perder por aqui, resolve misturar as coisas e fazer uma besteira sem tamanho: ofender o glorioso Grafite, atleta nosso, chamando-o de “negrito de merda”. Resultado: levou um tapa na cara. Depois os atletas foram expulsos, o jogo seguiu, mas, ao final a coisa tomou um rumo que não combina com o futebol. O argentino imbecil foi preso acusado de prática de racismo.
Um prato cheio para a imprensa do mundo todo, afinal essa prática imunda vem sendo cada vez mais repetida nos campos por aí. Ainda mais agora, onde também está envolvida toda a xenofobia incentivada pelo Galvão Bueno em relação aos argentinos. É preciso analisar com muita frieza essa situação, se formos agir pela emoção da indignação, a coisa só tende a piorar. Guerras começam por bem menos, saibam. A questão do racismo é mais aparente em relação à raça negra, por todo o legado histórico que envolve a situação, os negros já foram escravos em um tempo remoto e até eram tidos como bichos pelos imbecis da época. Mas, pôxa vida! Eu sou um branquelo, daqueles que quando toma café é possível ver o líquido descendo goela abaixo, e eu confesso: nunca, nunca mesmo, tive a menor inclinação para o racismo, se não fossem os livros, eu jamais compreenderia o motivo dessa confusão de valores.
De um tempo para cá, comecei a perceber que eu sempre fui, também, vítima de racismo, é, os brancos passam por isso, só que ninguém dá a menor bola. Todo santo dia tem sempre alguém para me lembrar o quanto que eu sou branquelo. Na adolescência, eu ficava mal com isso e me largava pra debaixo do sol tentando ganhar uma corzinha. Hoje em dia, não estou nem aí, sou branco mesmo, sem a menor vergonha disso. Sei, soa como hipócrita meu discurso, mas é a maior das verdades, tem sempre uma dose de racismo para todo mundo, não é privilégio dos negros.
Existem leis, o racismo é crime, basta que as “vítimas” se pronunciem, a sociedade se mova, sem estardalhaço ou segmentação de classes. Não somente os negros defendendo os negros, não somente os brancos defendendo os brancos, nem os índios aos índios, mas o ser humano defendendo o ser humano, sem violência, sob o amparo da lei, contra um inimigo comum: o racista.
Nós já temos problemas demais para enfrentar, ainda vem essa gente com “merda” na cabeça, muitas vezes sem motivação ideológica alguma, discriminar os outros por não terem a mesma cor da sua pele? Ah! Vão procurar o que fazer, seus racistas idiotas, façam como eu, bebam um bom vinho, comam um salaminho, um queijinho e percebam que a vida é bem melhor quando encontramos em nós mesmos a paz.
Jefferson Peixoto é escritor e jornalista.
Laureado pela Academia Brasileira de Letras.
e-mail: jefpeixoto@yahoo.com.br
Escrito por Jefferson Peixoto às 11h08
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